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Manuel Beninger

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sábado, 21 de janeiro de 2012

Joana D’Arc na passagem dos 600 anos do seu nascimento

Joana d’Arc tornou-se um tema especialmente caro a escritores, artistas, musicistas e cineastas. Como exemplos lembramos o oratório dramático “Jeanne au bûcher” com letra de Paul Claudel e música de Arthur Honegger, o filme de Roberto Rossellini com Ingrid Bergman e outros e “Le mystère de la charité de Jeanne d’Arc” de Péguy. Este livro deu origem à ópera que em 2006 foi representada no Palácio de Castelgandolfo na presença de Bento XVI. Na ocasião, o pontífice referiu-se ao génio de Péguy que soube enaltecer o grito que Joana elevou a Deus com paixão, implorando-lhe que fizesse cessar a miséria e o sofrimento que via à sua volta, exprimindo ao mesmo tempo a inquietação do homem e a sua procura da felicidade. Falou da esperança e coragem que conduziram Joana a cumprir a missão a que se sentia chamada. Aliás o actual papa tem recordado a mártir francesa noutras circunstâncias.
Joana nasceu em Domrémy (Lorena) em 1412, estando agora a ser celebrado o seu 6.º centenário com diversos actos comemorativos. A França não podia esquecer aquela que se distinguiu na Guerra dos 100 Anos restituindo ao país a sua soberania apoiando o rei Carlos VII contra a ambição dos ingleses. Tácito escreveu: «O túmulo dos mortos é o coração dos vivos»” que levou André Malraux a exclamar: «Ó Joana, sem sepulcro e sem retrato, Tu sabias que o túmulo dos heróis é o coração dos vivos». Condenada pela inquisição em 1431 com o fundamento de se dedicar a práticas de bruxaria e feitiçaria e a visões sobrenaturais em que ouvia S. Miguel e as Santas Margarida e Catarina, e ainda por usar vestes masculinas, foi executada na fogueira com a conivência do bispo Cauchon. Contudo o papa Calixto III, em 1456, declarou nulo o processo condenatório que foi editado por H. Leclercq. É um texto merecedor de uma leitura atenta: revela a grande firmeza de convicções.
Os historiadores da Igreja a fim de melhor situarem o caso de Joana d’Arc lembram a sua situação então. Depois do desafio do feudalismo seguiu-se o espírito laico que opunha a teocracia ao néo-cesarismo. Ao apogeu da cristandade que teve em S. Bernardo um símbolo marcante, às várias empresas militares com as peregrinações ao Santo Sepulcro, aos desvios acumulados sucessivamente, sucedeu-se a teocracia com a “Unam Sanctam” (1302) de Bonifácio VIII contra Filipe o Belo e o jubileu de 1300. O espírito laico e a ideia de monarquia nacional estão patentes no “Defensor pacis” de Marsílio de Pádua (1324) que apelava para o Deus dos leigos numa perspectiva de supremacia da esfera temporal sobre a espiritual.
Mas foi também o tempo do Concílio de Viena (1311-1312) e dos místicos como Santa Brígida da Suécia e Santa Catarina de Siena erguendo a sua voz contra a fraqueza papal que se intensificou com o Cisma do Ocidente. Igualmente João Huss e Jerónimo de Praga que se evidenciaram como arautos do retorno da Igreja à fidelidade evangélica foram condenados à fogueira. Os fiéis, sentindo-se abandonados e inspirados com a “Devotio moderna” e a “Imitação de Cristo”, reagiram com um trabalho de renovação que passava pelo empenho pelas realidades concretas. Era o laicado a marcar posição defendendo a liberdade da Igreja e a sua separação do Estado. A ideia de nação em Santa Joana pela França contrariava muitos clérigos, teólogos de Paris e o bispo Pedro Cauchon.
Praticamente esquecida durante quase cinco séculos, Joana beatificada em 1909 foi canonizada por Pio XI em 1920. Na fundamentação da sua santidade alude-se à solidez da sua piedade, à prudência dos seus juízos, ao seu porte virginal, à limpidez do amor à pátria, à docilidade às vozes que lhe vinham do Alto e à submissão a Deus em cuja presença vivia no seu dia a dia.
A sua memória é evocada a 30 de Maio que é igualmente dia nacional em França. Em 1932, Joana foi declarada padroeira secundária de França tendo em 1920 o dia 30 de Maio passado a ser dia de festa nacional. Semelhante foi o caso do português Nuno de Santa Maria que, beatificado em 1918, veio a ser canonizado por Bento XVI em 2009. Curioso que em 1916, J. Fernando de Sousa proferira a conferência “Joana d’Arc e Nun’Álvares”.
Em 1870, quando a França foi derrotada pela Alemanha “Joana, a pequena pastora de Domrémy, um pouco ingénua, tornou-se a heroína do sentimento nacional”. Republicanos e nacionalistas exaltaram aquela que deu sua vida pela pátria. Joana foi recuperada pelos profetas da «França eterna», em primeiro lugar pelo grande historiador romântico Jules Michelet. Com o romantismo, o alemão Schiller fez dela a heroína da sua peça de teatro “Die Jungfrau von Orléans” (1801). Entre tantas publicações sobre Joana, registamos “Le Moyen Âge: de Hugues Capet à Jeanne d’Arc, 987-1460 “ ( 1996 ) de Georges Duby. Mas também se assistiu ao contrário: Shakespeare tratou-a como uma bruxa e Voltaire escreveu um poema satírico, ou pseudo-ensaio histórico que a ridicularizava, intitulado «La Pucelle d´Orléans».
Manuel Augusto Rodrigues
Fonte: Beiras

domingo, 23 de outubro de 2011

Princesa Santa Joana há trezentos anos venerada num precioso mausoléu

No dia 23 de Outubro de 1771, os restos mortais de Santa Joana foram trasladados para o túmulo desenhado por João Antunes. Monsenhor João Gaspar assinala com este texto o tricentenário de um acontecimento marcante na então vila de Aveiro

Em 1595-1597 e em 1599-1602, exerceu o cargo de prioresa do Mosteiro de Jesus, em Aveiro, a madre Inês de Jesus ou de Noronha, senhora activa, disciplinadora, renovadora e empreendedora. A sua nobreza de carácter não lhe consentiu que os despojos da Princesa D. Joana continuassem guardados em modestíssima osteoteca, embora patente no meio do coro de baixo, para onde haviam sido transferidos à volta do ano de 1578, depois de exumados da campa rasa. Por 1602-1603, o caixão interior, que continha as relíquias, foi encerrado noutro cenotáfio, de forma sepulcral, de maior grandeza e artifício, além do material ser mais condigno – ébano, coberto e ornado por marchetes de bronze dourado. O ataúde, ostentando o brasão da Princesa, foi colocado no mesmo lugar, agora sobre um supedâneo de pedra de Outil, e cercado de grades torneadas, com semelhantes ornatos de bronze.

Decorrido pouco mais de um século, após um minucioso processo canónico nas respectivas instâncias da Santa Sé, o papa Inocêncio XII, em 04 de Abril de 1693, mandou publicar o breve da beatificação equipolente “Sacrosancti Apostolatus cura”; por tal documento foi oficialmente confirmado o culto imemorial de Santa Joana. Na sequência do faustoso acontecimento, logo sucederam celebrações festivas em vários lugares. O Paço Real, em Lisboa, por ordem de el-rei D. Pedro II, foi dos primeiros a dar exemplo. Em Junho, no Mosteiro de Jesus, D. João de Melo, bispo de Coimbra, que apelidava a Princesa como a “sua Santa”, celebrou Missa pontifical, prometendo participar nas solenidades da beatificação, que viriam a realizar-se no ano seguinte de 1694. E assim aconteceu. De Coimbra vieram a Aveiro os cantores da Capela da Catedral para o oitavário, que culminou, em 12 de Maio, com a faustosa celebração da Eucaristia e com uma imponente procissão; nesta foi levada a primeira imagem da Santa Princesa, em bela escultura em madeira, para a qual se levantou um sumptuoso altar lateral no interior da igreja de Jesus.

D. Pedro II paga

El-rei D. Pedro II, após a beatificação de Santa Joana, ordenou a renovação e o aformoseamento do coro de baixo do Mosteiro, onde os seus restos mortais haviam sido sepultados, e mandou que se fizesse um túmulo condigno, a fim de se substituir o anterior. Para a sua concepção, foi escolhido o notável arquitecto lisbonense da Casa Real, João Antunes (1643-1712), cujos honorários foram pagos pelo próprio monarca. A obra, iniciada em 1698, terminou em 1709. No essencial, o sepulcro, assente sobre um bloco de pedra, é uma arca rectangular com base e cornija, cuja separação é feita nos extremos das faces por mísulas alongadas e finamente trabalhadas. São vários os elementos decorativos e os símbolos religiosos, que enriquecem o mausoléu em cada uma das quatro faces, como a cruz, a coroa de espinhos, a palma, o lírio, as flores e as ramagens. Em baixo e aos cantos, quatro querubins, alados e de braços erguidos, seguram-na e transportam-na ao céu e a fénix, no centro, aponta o renascer «ex cínere»; como remate superior emerge, também suportado por anjos, o brasão português, encimado pela coroa real, entre volutas. Magnífico e admirável exemplar de entalhados multicolores de mármore, embutidos com suma delicadeza e perfeição, é no seu género uma peça incomparável no embrechado, equilibrada no desenho e adequada ao barroco nacional.

Foi o bispo de Coimbra, D. António de Vasconcelos e Sousa, quem, no dia 10 de Outubro de 1711 procedeu ao reconhecimento canónico das relíquias de Santa Joana, entre mostras de muita piedade. Nos dias seguintes, houve tríduo de Missas, pregações e festas. No dia 23, após a Missa pontifical do prelado, realizou-se um magnífico cortejo, com danças, charamelas e trombetas, que deu volta ao claustro conventual e percorreu algumas artérias da vila de Aveiro, passando junto à secular igreja matriz de S. Miguel e defronte da Casa da Câmara Municipal e parando, durante uns instantes, no Convento de S. João Evangelista, das irmãs carmelitas. À frente iam os frades dominicanos, provenientes de várias partes, depois os carmelitas, os franciscanos e muitos eclesiásticos e nobres; ao todo, perto de quinhentos clérigos, por ter o bispo ordenado que concorressem os das freguesias circunvizinhas. Logo após, alçava-se a cruz da Sé, sob a qual os cantores de Coimbra e os músicos da Capela Real, solicitados de Lisboa pelo prelado, entoavam salmos e hinos; os membros do Cabido caminhavam com solenidade incomum. Conduzido debaixo do pálio, a cujas varas pegavam seis cavaleiros do hábito de Cristo, o riquíssimo andor com as relíquias era levado pelos abades mitrados dos mosteiros beneditinos de Santo Tirso e de Coimbra e dos cistercienses de Seiça e do Espírito Santo ou de S. Paulo de Coimbra, por não haver bispos disponíveis nas Dioceses limítrofes. À passagem, a Infantaria militar, em duas alas ao longo das ruas, salvava com repetidas descargas. Atrás, seguia o antístite, com os seus acólitos, o Senado Municipal e uma tão grande multidão de pessoas que as Justiças não podiam conter. Recolhida a procissão no Mosteiro de Jesus, colocou-se o caixão dentro do túmulo, que logo se fechou.

Candelabros roubados pelos franceses

Posteriormente, o sétimo duque de Aveiro, D. Gabriel de Lencastre Ponce de Leão, por escritura lavrada em 03 de Janeiro de 1733, doou e mandou entregar à prioresa do Mosteiro de Jesus cinco candelabros de prata para serem colocados junto do sepulcro da Santa Princesa e neles se acenderem velas. Tais lampadários substituíram os quatro candelabros de cristal que, algum tempo antes, ofertara o mesmo devoto para idêntico fim. Conforme o teor do documento notarial, os candelabros de prata eram lavrados a cinzel; o maior tinha duas ordens de luzes (seis luzes a de cima e doze a de baixo); outros três tinham uma ordem de doze luzes; e o mais pequeno tinha uma ordem de seis luzes. Em 1808, «esta preciosidade artística foi levada ou, para melhor dizer, roubada pelos franceses» – informa o aveirógrafo Marques Gomes.

No decorrer da história milenar do nosso burgo, este facto significa um acontecimento marcante, singularmente vivido em 23 de Outubro de 1711 com ‘pompa e circunstância’. Na ocorrência do seu terceiro centenário, nós não poderíamos deixar de assinalá-lo num sentido de gratidão à celeste Padroeira de Aveiro que – como ela prometeu antes de falecer - «eu hei-de lembrar-me desta Casa e da Vila, onde quer que a minha alma estiver».

João Gaspar

Fonte: Correio do Vouga