Mudar o regime Servir Portugal

Manuel Beninger

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segunda-feira, 8 de julho de 2013

Um perfil no meio de muitos; artigo de opinião de Sílvia Oliveira


O perfil que abordarei trata um tipo de expressão psíquica perversa e silenciosa que embora sempre tenha existido, talvez encontre na cultura atual um terreno particularmente fértil, tornando-se mais comum do que poderíamos imaginar. Esta perversão tem como mote o poder, que hoje é incentivado pelos meios de comunicação social.
Para iniciar a sua caracterização afirmo desde logo que se trata de uma violência que se estende ao longo do tempo e não de uma violência pontual, ela imiscui-se no dia a dia, nos pequemos atos, tendendo assim a passar despercebida. A própria vítima tem dificuldade em a perceber e mais ainda em a reconhecer, tornando-se, por isso mesmo, uma cúmplice de uma teia não desejada, que lentamente lhe vai desmoronar a auto-estima e paz interior, isto acontece na dominação de um sobre o outro, em relações que tanto podem ser profissionais, como familiares e até intimas, onde a dependência emocional e/ou material existe e, onde o agressor nutre o sentimento de ódio pelo outro, mas simultaneamente sente que não pode sobreviver sem ele, como se o outro fosse a sua sustentação, recusando neste quadro os desejos e necessidades do outro em proveito das suas próprias necessidades.
A violência silenciosa que refiro é velada e insidiosa, existe e mantêm-se por vias indiretas e complexas da relação humana, sendo logo apriori negada e renegada pelo agressor, que de forma subtil inverte a relação acusando o outro de ser o culpado das ocorrências que lhe são desagradáveis, compensando através deste poder e controle sobre o outro, os seus conteúdos psicológicos perturbadores que passam por uma melancolia e/ou depressão com certo cunho psicótico. A sua maldade cria-se através de um cálculo imaginário e fantasmático com toques paranóicos explícitos e uma deformação da apreensão da realidade, uma projecção de sentimentos defensivos e medos primários sobre as acções dos outros, onde a falta de confiança interna estrutural é vincadamente inscrita.
Este perverso silencioso por dificuldade de defrontar-se com os seus próprios problemas viverá uma existência insuficiente e superficial que lhe confirmará um fundo inseguro e fadado ao fracasso, que procura a todo o custo esconder dos outros e de si mesmo. Remetido à sua fraca integração, às suas falhas, ao seu sentimento de menos valia, que tanto ameaça o seu silêncio, à revolta que o faz odiar o mundo e duvidar da bondade alheia, à dificuldade de amar a vida e o outro, sobretudo em amar aqueles que o amam, acreditando, enfim, que só pode sobreviver dominando, manipulado e escondendo. Os seus ataques são crescentes quando se sente acusado, quando perde o domínio sobre o outro e vê ameaçada a situação que o favorece. Ou seja, o ataque é de fato uma defesa contra a possibilidade de a vítima insurgir-se contra a sua “vampirização”, contra o seu controle e manipulação, contra a situação por ele lentamente criada que favorece a dominação em que se sente seguro. 
Mas, o mais grave destas situações é que o agressor atua inconscientemente, acreditando que as suas construções paranóicas de ataque ao outro são vindas de um sentimento e são, absolutamente, imprescindíveis para a sua sobrevivência, vindo-lhe, por isso, à consciência de que o outro merece os seus ataques, silenciosos e precisa estar sob controlo e sob o seu domínio, pois caso contrário esse outro ameaçá-lo-á na sua continuidade. Quase que poderei arriscar dizendo que, este tipo de agressor tem pavor de enfrentar-se a si mesmo, medo devido ao reflexo do vazio, à ausência de integração, à falsa imagem ou melhor à inexistência de amor na sua vida primária, aquela onde cuidadores, progenitores e pais inscrevem a sua expressão. Mas, isto não pode justificar as ações de uso e apropriação do outro para fazer frente à sua própria fragilidade, encarando-a como se de uma questão de sobrevivência se tratasse, em que o ataque silencioso vem em sua legitima defesa.
Em suma o que este tipo de agressor não pode fazer é projetar no outro o que de ruim ele sente em si próprio, destruindo, como se estivesse a destruir-se a si mesmo ou a controlar os seus próprios fantasmas, passando a viver da vitalidade do outro, isto porque nem a vitalidade que retira ao outro passa a ser sua, nem as suas dificuldades findam ou modificam.

Sílvia Oliveira
Deputada do PPM na Assembleia Municipal de Braga

quinta-feira, 9 de maio de 2013

A síndrome de burnout na função pública; por Sílvia Oliveira

Apesar de vivermos uma época de crise no Estado e na Administração Pública, onde a gestão organizacional apresenta múltiplas limitações, a missão de prestar serviços à sociedade continua, interessando, por isso, cuidar da absoluta versão da crise, os “Seres Humanos” ou neste caso, os Funcionários públicos, revalorizando-os como sendo os únicos recursos seguros e estáveis para a vencer.
A gestão na função pública apresenta excessivas regras e rotinas, que impedem a participação criativa, a autonomia e as consequentes tomadas de decisões, emperrando muitas das atividades que deveriam ser realizadas. Também possui uma supervalorização da hierarquia e rigidez no seu funcionamento, para além do aferro ao poder. Os trabalhadores são controlados por papéis, normas e procedimentos, as condições do trabalho tendem a uniformizar-se, encaminham-se os trabalhadores para idênticas situações laborais e de organização do trabalho, sendo a dependência da decisão política e das flutuações da capacidade económica do Estado, mais uma das questões relevantes, na medida em que determinam aspectos importantes do exercício funcional do trabalhador.
Neste contexto, vejamos a título de exemplo a profissão docente, reconhecida por ser de uma profissão de “alta tensão”, onde muitas das atribuições impostas a este profissionais ultrapassam em larga medida as suas possibilidades: além de turmas lotadas e exigentes, têm ainda que desempenhar trabalhos burocráticos, desnecessários e não relacionados com a essência da sua profissão, como são as funções de secretariado, responder à necessidade de actualização constante da sua atividade docente, orientar os alunos e atender os pais, procurar respostas às exigências que a sociedade lhe atribui, na tentativa de corrigir problemas sociais, provenientes de um domínio familiar ausente, estando simultaneamente muito expostos a críticas e a grandes cobranças pela população em geral, raramente reconhecidos pelo seu sucesso, a viverem longe da zona de residência dos familiares, com falta de condições e recursos materiais, sujeitos a adaptações constantes às muitas reformas e mudanças que o sistema de ensino-aprendizagem tem transportado, tanto a nível da organização da aprendizagem, como da própria carreira, resultando tudo isto numa sobrecarga emocional e física, proporcionadora direta de esgotamento profissional ou burnout. Mas afinal o que é isto de burnout? Burnout é uma reacção às condições de trabalho stressantes, uma síndrome que assinala exaustão emocional, respostas interpessoais frias e distantes e uma baixa realização profissional, com a perda de motivação, em relação a si próprio, família, amigos e trabalho. As consequências podem ser sérias, pois a sua ocorrência para além de se vincular à diminuição das habilidades, aumento do absenteísmo e a intenção de desistir do trabalho, diminui o comprometimento organizacional, bem como, instala o mal-estar físico e psicológico revelado nas relações interpessoais, no sentimento de inadequação e fracasso, podendo mesmo atingir estados depressivos e ansiosos para além da ocorrência de somatizações e doenças físicas graves. Ou seja, um desgaste que se instala progressivamente, até que surge o colapso, isto porque o desempenho é sempre apresentado com mais esforço e mais empenho, sendo as tentativas, em ambientes de trabalho hostis e desumanizados, infrutíferas, o que leva o profissional a desistir, adoecendo.
Neste quadro, surge a necessidade de maior saúde laboral, nos serviços públicos, evidenciando-se a urgência de mudança no processo de trabalho, de forma a se minimizar as consequências sobre a saúde dos servidores públicos. Prevê-se, porém, que à medida que seja alterada e valorizada a relevância de propiciar melhores condições laborais nestes contextos específicos surjam, também, resistências e questões de ordem política e organizacional, e isto porque coexistem, por um lado, a burocracia em seu sentido corporativo, centralizador e portanto, contrário às mudanças na organização e nas formas de operar dentro do aparelho do Estado; e, por outro lado, as próprias forças inovadoras, cuja responsabilidade é a efectiva mudança, que encontram, nestes meios organizacionais, muita dificuldade para implementar, de maneira efetiva, projetos de reforma. Mesmo assim, e independentemente das resistências criadas, a função pública, terá que quebrar paradigmas, modificar comportamentos e alterar atitudes almejando o novo e a mudança, tudo isto em proveito da continuidade e saúde dos únicos Recursos que possui seguros e estáveis, os Funcionários públicos.

Sílvia Oliveira
Deputada pelo PPM na Assembleia Municipal de Braga
Jornal "Diário do Minho" de 8 de Maio, pág. 14

sexta-feira, 8 de março de 2013

Liderança feminina


A liderança no feminino terá porventura um efeito multiplicador na produtividade, e crescimento económico sustentável de um país.
A literatura é vasta e aponta às mulheres um estilo de liderança transformacional que se apoia nas habilidades interpessoais, as mulheres trabalham em grupo, são inclusivas, relacionais e cooperantes, flexíveis em termos de abordagem, têm boa capacidade de entender, de motivar e de se adequar ao perfil de cada membro da sua equipa, exercem a liderança definindo estratégias e alinhando as pessoas, com vista a atingir os resultados consistentes com a missão e os objectivos da organização, trabalhadoras, perseverantes e criativas, preparam-se excessivamente para tudo, o que as faz adiar decisões e perder oportunidades de promoção. Para Frankel (2007) “todas as mulheres são naturalmente líderes”, os talentos naturais entre os quais se inclui a partilha, apetência pelo trabalho em rede e pela negociação, a sensibilidade emocional e a empatia, a capacidade de conciliar diversas tarefas ou a facilidade de comunicação verbal, o forte perfil analítico, a grande capacidade de planeamento, a aptidão de ver o todo, a generosidade, harmonia e posição participativa, a habilidade na negociação e na resolução de problemas, são atributos essenciais para uma boa liderança. Esta afirmativa teórica leva-nos a perguntar, o que se passa na prática?
Na Europa as mulheres representam 60% dos licenciados e constituem 44% da força do trabalho, apenas 13,5% têm lugar nos conselhos de administração das grandes empresas e somente 2,5% se sentam na cadeira do poder. A Finlândia lidera a lista dos dez países com mais mulheres em cargos ministeriais, logo seguida por Cabo Verde, Espanha, Noruega e Chile. Entre os Países de Língua Portuguesa surge curiosamente o Brasil com menos mulheres a ocuparem cargos parlamentares e ministeriais. Nos ministérios governamentais, a equidade é maior em Cabo Verdecom 53,3% de mulheres representadas. A nível do poder legislativo evoluiu-se de 11% para 21%, enquanto no campo judicial, a proporção de mulheres procuradoras passou de 15% para 21%. Na Noruega as politicas de ordem conseguiram que a representação feminina evolui-se de 22% para 40% na liderança de empresas, entre 2003 e 2008. Na França a imposição de uma quota feminina de 40% às suas melhores empresas reforçou a presença das mulheres na liderança em 10%, tendo sido a média da Europa de 0,5% em 2010 e 1,9% em 2011. A Vice-Presidente da Comissão Europeia e responsável pela área da Justiça, Direitos Fundamentais e Cidadania lançou, em 2011, um desafio aberto a todas as empresas europeias cotadas em bolsa, com vista ao seu comprometimento voluntário para aumentarem a presença feminina nas suas direções, passado pouco mais de um ano, apenas 26 empresas assinaram o documento e, destas, só uma é portuguesa. Em Portugal existe uma Resolução do Conselho de Ministros, que veio tornar obrigatória a adoção de planos de igualdade em todas as entidades do sector empresarial e do Estado. Um estudo sobre as “Mulheres na Política (2010)”, publicado pela União Interparlamentar e Divisão da Promoção da Mulher das Nações Unidas, revela que a promoção das mulheres para cargos de topo tem sido eficaz ao nível governamental. O mesmo estudo revela, ainda, que 10% dos países membros da ONU têm mulheres chefes de Estado e que a média global de mulheres parlamentares atingiu 18,8%. Também as empresas europeias que apostam na igualdade de género registam percentagens mais elevadas de mulheres em lugares de chefia, no entanto, nas mil maiores multinacionais europeias, apenas 3% das presidentes são figuras femininas. A Comissão Europeia, defende que promover uma efetiva igualdade entre homens e mulheres é essencial para que a União Europeia dê resposta à atual crise económica, por isso, determina que, em 2015, 30% dos membros dos conselhos de administração sejam mulheres, tendo a representação feminina que passar para 40%, até 2020.
Verificado este evoluir, sem evolução e também sem grandes soluções para a complexidade deste fenómeno, entendo, apenas, que as mulheres necessitam de aceitar menos os estereótipos, que lhes atribuem o papel de cuidadoras e assumir a partilha de responsabilidades parentais. Também é inegável a adoção, por parte das organizações, de práticas e políticas de gestão que favoreçam a conciliação da vida profissional, familiar e pessoal, contributos determinantes para que as mulheres possam assumir responsabilidades como dirigentes de topo ou como gestoras do seu próprio negócio. Por último, julgo ser de grande valia incluir de forma ativa os homens na vida privada, promovendo e reforçando as suas competências parentais, assim como, o acesso das mulheres à vida pública.

Sílvia Oliveira
Deputada pelo PPM na Assembleia Municipal de Braga
Jornal "Diário do Minho" de 8 de Março, pág. 19

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Os sonhos, uma ferramenta para a crise...


Sonhar é uma antecipação mental de uma determinada realidade que é uma possibilidade, o resto é um trabalho de inspiração, coragem e optimismo, mas também de confiança em nós mesmos. Quem sonha parece não ter dúvidas de que é preciso alguma paciência para levar os sonhos por diante. Os sonhos nocturnos apontam-nos o passado, o que sonhamos acordados apontam o futuro, são previsões voltadas para a optimização da nossa vida no mundo.
Como diz Augusto Cury para sonhar é preciso “libertar criatividade” e ter “dois remos para conduzir o barco: a paciência e a coragem”, mas também determinação e esperança. Na opinião de Cury “a maneira como enfrentamos rejeições, decepções, erros, perdas, sentimentos de culpa, conflitos nos relacionamentos, críticas e crises profissionais, entre outras situações, pode gerar maturidade ou angústia, segurança ou traumas, líderes ou vítimas, sendo estas as diferenças no homem que levam ou não, os sonhos a conquistas. É importante lembrar que só tem vontade de avançar aqueles que têm horizontes, pois se não conseguem imaginar o dia de amanhã é porque nem sequer querem que ele exista.
Há pessoas que sonham um curso, um título, um emprego, outras há em que os seus sonhos são orientadores de vida, são as metas e os objectivos, mas também há os que sonham com um mundo melhor, com a igualdade, a liberdade, a paz, entre muitas outras coisas.
Mas será que sonhamos ou nos deixamos levar pela ilusão, criando fantasias irrealizáveis? Ou até que ponto embarcamos numa fuga para a frente, concentrando-nos no futuro, negligenciando o presente ou evitando o passado?
A impossibilidade de sonhar nasce na infância, na fase de crescimento que coincide com a capacidade de edificarmos o nosso mundo à medida que nos separamos dos nossos pais. Quando as coisas não correm bem desenvolve-se na criança dependência em relação ao adulto ou omnipotência, neste caso, com crianças extremamente autónomas e funcionais que na aparência parecem não precisar de ninguém, dando a ideia de que foram capazes de fazer uma separação saudável dos seus cuidadores, só que as coisas nem sempre são o que parecem, nestes casos são crianças que deixaram de confiar nos adultos. Mas, tanto num caso como noutro há nestas crianças/adultos excesso de amor ou de desamor sendo o resultado uma grande incapacidade de estar consigo próprio, de imaginar ou sonhar.
Nesta continuidade encontramos pessoas com excesso de sonhos, diria de ilusões. São indivíduos com dificuldade em se adaptar à realidade, refugiando-se, por isso, na interpretação da mesma, o que os faz viver de fantasias e fracassos. Para Cury "quem viver preso num casulo com medo dos acidentes da vida, além de não os eliminar, será frustrado”.
Outros ainda, que enterram os seus sonhos nos solos da sua timidez e nos destroços das suas preocupações.
Neste processo também os pais podem ser postos em causa, na medida em que sonham em vez dos filhos, criam fantasias sobre eles, desenvolvem sonhos desajustados à realidade dos seus filhos, podendo em casos extremos prejudicá-los de forma traumática, isto para não falar nas decepções que os próprios pais sentem devido às suas próprias invenções.
O sonho pode bem ser a necessidade fundamental de um mundo material ou a capacidade de ver e antecipar o não visível mas que tem potencial de se tornar concretizável. Quando sonhamos uma realidade desejada, de alguma forma tentamos, com esse sonho, aproximarmo-nos da possibilidade de ela ser real. Por isso, definir por onde queremos caminharia com audácia e disciplina, independentemente do nosso passado e de estarmos a viver uma situação menos boa, é mobilizador de uma enorme energia que nos permite perceber que é possível ir sempre mais longe e nos encaminha para onde queremos chegar.

Sílvia Oliveira
Deputada pelo PPM na Assembleia Municipal de Braga
Jornal Diário do Minho de 23 de Fevereiro, pág. 2

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Ano Novo Vida Nova


Todos os anos cumprimos o mesmo protocolo, pegamos em doze passas e, por cada uma que colocamos na boca, ao compasso das badaladas que marcam mais um progresso no calendário, pedimos desejos para o ano novo que está a comparecer. Nesse instante de contagem decrescente, afiançamos que vamos arranjar energias para tornar os nossos sonhos realidade, pois deles depende a nossa ventura, juramento este que no dia seguinte fica largado ou adiado.
Mudar de vida dá trabalho exige uma atitude activa, avaliando as vantagens, enfrentando as escolhas, renascendo e aprendendo.
O que nos leva a aferrolhar o caminho aos desejos de mudança é o medo, a segurança existencial e consequente necessidade de controlar todos os riscos. Claro que mudar por mudar, sem saber muito bem porquê ou para onde, não é solução para qualquer tipo de mal-estar interior. Mas, a mudança, quando reflectida e nascida dentro das nossas potencialidades vitais, pode abrir caminhos de realização nunca imaginados possíveis. E, o que nos leva a abrir esses mesmos caminhos para a mudança é a angústia diária, como sinal de alarme que nos faz parar para questionar o que queremos para a nossa existência(?). Desta questão surge naturalmente uma encruzilhada, situação mais ou menos complexa do que é habitual, tendo a pessoa que optar por um caminho vital entre vários possíveis. As mudanças, os conflitos, as crises ou as encruzilhadas não são acidentes do destino, são parte natural e essencial da condição humana, alimentam uma ideia de renascimento, pois nela incluem uma solução satisfatória e uma esperança para a frente.
Ora, olhar de frente é talvez o maior desafio de quem decidiu tomar como pensamento “Ano Novo Vida Nova”. Para isto temos que nos debruçar sobre nós mesmos e analisarmos as nossas necessidades mais profundas, e se somos tão bons a fazê-lo para os outros, sobretudo quando não nos pedem, porque é que temos tanto medo de olhar e actuarmos dentro de nós(?), porque talvez tenhamos medo de que as nossas verdadeiras necessidades não correspondam às exigências dos outros ou da sociedade, o que nos dificulta a tomada de decisão ou então temos medo de dar um passo em falso, ir contra as praxes sociais. Enfim, vencer este terror inicial da descoberta é fundamental e uma empreitada que depende somente de cada um, onde nenhum apoio externo pode subestimar esta decisão autónoma de fazermos algo por nós próprios.
Aprender e renascer passa naturalmente por mudanças nas crenças e costumes. Por isso é essencial conhecermos a nossa história, pois é o passado que nos mostra as nossas possibilidades e limitações. Não podemos fazer planos de futuro a partir de uma avaliação errada dos nossos recursos, alertando-se que muitas das nossas potencialidades poderão estar esquecidas ou até sufocadas por nunca terem sido chamadas ao nosso quotidiano.
A mudança acontece e com ela os tempos de desordem que requerem coragem e perseverança. Talvez não seja fácil aceitarmos a desordem devido à luta contínua pela ordem das coisas, quando este caos se instala temos atitudes imaturas e infantis ou melhor temerosas, são as regressões em que adoptamos novamente comportamentos de outras etapas da vida, e em que damos um passo atrás na nossa relação com o mundo.
É, assim, nesta desordem e persistência que aventuramos um novo caminho de vida, uma descoberta, uma nova tarefa, que de solitária não tem nada, visto precisarmos de todos os outros para se criar o ambiente propício à mudança e crescimento. Se as pessoas à minha volta forem congruentes, genuínas, autênticas, se me aceitarem de forma incondicional, ou olharem para mim de modo positivo e dispostas a compreender-me, então temos criadas as condições certas para a mudança e crescimento.

Sílvia Oliveira
Deputada pelo PPM na Assembleia Municipal de Braga
Jornal "Diário do Minho" de 4 de Janeiro de 2013, pág. 19

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Comprar pode ser um sentimento; por Sílvia Oliveira


Cresce o desconforto de um processo sem fim, que tem na sua base crenças insensatas em que comprar pode ser um acto sentimental ou compulsivo quando serve para nos compensarmos daquilo que não podemos ter. Este comportamento alimenta-se de uma ansiedade crescente em que quanto maior a tensão interior, mais vezes se repete o comportamento, assim como, maior se vai tornar o sentimento de culpa, de perda de controlo e de desvalorização pessoal. O comportamento compulsivo e rotineiro apenas esconde necessidades afectivas não preenchidas: são tristezas, solidões e frustrações os pilotos destes comportamentos; são o vício em que as pessoas estão envolvidas; é uma fraca auto-estima inconscientemente compensada com as compras; é uma tensão acumulada e incapacidade de resistir ao impulso, acto prejudicial, em que a pessoa apesar de ter consciência do seu acto não consegue impedir-se de o fazer. O acto de comprar proporciona, ainda que temporariamente, emoções positivas como a alegria, o bem-estar, a sensação de poder e até algum relaxamento, o problema, é que a corrida às compras não “tapa” o vazio interior. Se estamos mal no casamento ou no emprego, se temos problemas com os filhos ou com os pais, se os vizinhos são um incomodo desforramo-nos nas compras para reduzir a ansiedade, de compra em compra experimentamos as emoções de alegria e/ou tristeza, pelo meio somam-se perdas afectivas e sentimentos de profundo desespero que, por vezes, é preciso chegar para repensar tudo e partir do zero, procurando-se soluções pessoais aos problemas em vez de substitutos materiais.
Para reforçar esta realidade que vem de dentro de cada um de nós temos no descoberto das pessoas a sociedade da superabundância, onde somos assediados pelos múltiplos apelos ao consumo, a facilidade de acesso ao dinheiro que apesar de constituir, só por si, um factor ilusório, faz consumir cada vez mais. Neste rescaldo, consumimos para nos afirmarmos em que o possuir é algo como demonstrar, adquirir status, conhecimento e distinção.
E, nesta permuta entre o pessoal e o colectivo surge-nos a inevitável questão: será que podemos continuar nesta atitude, com este comportamento condicionado ao consumo? É claro que não, a sociedade que ontem nos abriu as portas ao consumo é a mesma que hoje as fecha, alertando-nos para o “travão a fundo” na despesa, recordando-nos, inclusivamente, que os bens acautelam as nossas necessidades, mas não nos aliviam das frustrações do dia-a-dia que nos impelem à acção espontânea que, por vezes, ignora os nossos interesses e o dos outros.
Enfim, apesar da sociedade mediatizada e materialista, nos bombardear com todo o tipo de estereótipos, o que nos dificulta a percepção do que é realmente essencial, como se nos fizessem uma lavagem ao cérebro, destituindo-nos de sentido crítico, surgindo com isto o mal-estar interior, aquele que nos faz sentir vazios e perdidos, escravos de todo o tipo de modas e tendências, muitas das vezes geradoras, ainda, de mais decepções, as pessoas sabem muito bem como se libertar da pressão da publicidade e do consumo, se estão inquietas é por outros motivos como o desemprego, uma doença, a relação com os outros, o desapontamento ou a falta de amor. Por isso, não faça das compras deste Natal o antitóxico do vosso humor ou da vossa moral.

Sílvia Oliveira
Deputada municipal pelo PPM na Assembleia Municipal de Braga
Jornal "Diário do Minho" de 9 de Dezembro

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

CHEGARAM OS DIAS CINZENTOS, NÃO FUJA DELES - artigo de opinião de Sílvia Oliveira


Corremos o risco de atrofiar a nossa existência, privando-nos de alcançar patamares mais ricos e mais humanos, quando tentamos afastar, e depressa, para se impedir o risco de exclusão familiar e/ou social, estados de humor como a raiva, a melancolia, a frustração, a tristeza, a ansiedade e o medo, que em circunstâncias legítimas são naturais e até transformadores. As emoções perturbadoras não têm de ser “as más da fita”, sobretudo se nos permitirem o questionamento e a autoconsciência, isto é, o reconhecimento de uma emoção enquanto ela decorre, ou dito de uma outra forma, o comportamento saudável que nos pode conduzir a mudanças, em períodos de crise.
Tal como a alimentação saudável, o exercício físico e o sono reparador, são sinónimos de saúde e bem-estar, também a gestão das emoções deve ser considerada como uma espécie de bússola de orientação interna, pela finalidade que tem de adaptar o homem às circunstâncias, o que naturalmente é o mesmo que voltar a falar de saúde e bem-estar, independentemente de num caso a actuação ser mais física e no outro mais psicológico.
Porém nem sempre é fácil lidar com tantos e tão rápidos estados de humor que preenchem o nosso quotidiano. Basta que surja um acontecimento inesperado, como a morte de um familiar, um divórcio, a perda de emprego, entre muitos outros, importantes ou até banais, para que o mundo interior fique, na maioria das vezes, virado do avesso, agudizando fragilidades até então ocultas, que encontram nestas carências e perigos a oportunidade e o desejo de uma “felicidade” individual.
Chegados aqui a negar a presença das pressões que nos afectam, das mais triviais às mais complexas, ou reagir desmedidamente a elas de forma persistente compromete seriamente a vida pessoal e profissional, isto sem contar com os danos físicos e psicológicos que estes quadros reactivos acarretam.
Em alternativa, entrar fundo, bem dentro de si mesmo encarando as experiências emocionais, difíceis, de frente, ou dito de outra forma, colocar as emoções negativas ao espelho, pensar que o medo é legítimo, mas não nos pode atar as mãos e os pés, podendo ser até o impulsionador da coragem dos guerreiros, que a humilhação dói, mas ajuda a se voltar a assumir riscos, que a decepção faz parte da vida, mas a capacidade de confiar também, que a zanga é válida, mas sem a velha máxima - olho por olho, dente por dente -, que afinal não se é único a passar por todas estas sensações, que tudo é temporário, ou seja, não dura para sempre, restando-nos, apenas, em tais quadros em que a sensação é de derrota, ressentimento, aversão e até ódio, inutilidade, impotência, apego, revolta e muito sofrimento, saber parar, parar para reflectir, entrando assim nos dias cinzentos, os verdadeiros “mágicos” de sabedoria e transformação.

Sílvia Oliveira
Deputada Municipal pelo PPM na Assembleia Municipal de Braga
Jornal "Diário do Minho" de 30 de Outubro, pág. 20

domingo, 7 de outubro de 2012

Do movimento ao mérito


O que desencadeia as energias e os recursos anímicos que vamos tendo para alimentar o nosso quotidiano, enrodilhado em acontecimentos e pejado de preocupações são os motivos nem sempre bons nem sempre maus, mas possíveis de ser evocados em frente de amigos e conhecidos ou a motivação consciente, que nos permite grandes e pequenas batalhas, travadas em direcção a objectivos elegíveis, que por isso mesmo, podem ser ditos em voz alta.
Na motivação começamos sempre por um impulso interno, aquela coisa de sobrevivência, que é capaz de nos levar à satisfação de necessidades muito, muito “grosseiras”, para seguirmos em frente, expandindo a ideia, ainda mais, até chegarmos à atracção ou aos patamares de conforto e exigência, que levam em conta as preferências individuais. Chegamos, assim, ao momento de afirmação pessoal, descobrindo com ele, que gostamos de ganhar dinheiro, que gostamos de comprar coisas bonitas e sentir a segurança que os “pés-de-meia” nos proporcionam, que gostamos de sermos importantes ou famosos, pagando muitas das vezes para sermos cumprimentados com deferência, que gostamos, felizmente apenas para alguns, do controlo mais ou menos sofisticado e perverso de “dar cartas” e viver das emoções dos outros, sentindo-nos com isso, no centro de um “mundozinho” limitado mas simultaneamente embriagante, que gostamos de nos apaixonar em cada enamoramento, tecendo para isso complicadas atitudes sedutoras que até nos levam a escrever um livro, uma música ou um poema, na dor da festa ou da despedida, que gostamos que conversem connosco e nos convidem para uma festa e até nos convenção da nossa popularidade, enfim gostamos de uma forma plural e igualmente legítima.
O desconfortável de todo este movimento humano não é o reconhecer nestes motivos apresentados ou noutros igualmente verdadeiros simpatia, incompatibilidade ou discórdia, mas sim perceber que o sistema de compensação ou o sistema que alimenta estes movimentos, não é nem assumido, nem claro, e isso acontece quando o que nos move nos escapa à consciência, surgindo desse resultado prioridades circunstanciais pouco íntimas, que nos levam a não reconhecer o mérito, o nosso mérito.

Sílvia Oliveira
Deputada Municipal pelo PPM na Assembleia Municipal de Braga
Jornal "Diário do Minho" de 6 de Outubro, pág. 20

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O stress no trabalho - Artigo de opinião de Sílvia Oliveira


Sabemos que o modo como as pessoas vivem e trabalham influencia, consideravelmente, a sua saúde e longevidade. Por isso, os indivíduos, de uma forma geral, apresentam interesse numa vida saudável, equilibrada e harmoniosa, estando estas intenções de acordo com a definição de saúde da OMS, “um estado completo de bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças”.
Mas, em oposição ao desejo de saúde declarado pelo indivíduo e a sociedade, encontramos o stress assumido e aceite como um modo de vida que evoluiu desde o período da Revolução Industrial e chega aos nossos dias como o maior responsável pela diminuição da qualidade de vida do trabalhador, sendo por isso mesmo uma das principais áreas de preocupação da sociedade atual.
Segundo dados publicados pela Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho, o stress relacionado com o trabalho afeta 41 milhões de trabalhadores, por ano, em todos os ramos de atividade. Isto equivale a cerca de 600 milhões de dias de trabalho perdidos, constituindo esta situação um motivo de preocupação devido aos efeitos sociais e de saúde pública para o século XXI. Só na União Europeia, o fenómeno do stress está no segundo lugar entre os problemas de saúde mais frequentes, no contexto da saúde ocupacional, afetando 28% dos trabalhadores do mercado, provocando, numa ótica quantitativa, quebras de ritmos de produção, causados pelo desgaste da capacidade produtiva dos trabalhadores, custos com a saúde e medicina ocupacional, para a reabilitação dos recursos humanos, gastos com a formação, reposição e integração de novos trabalhadores, para além das greves e do absentismo.
Considerando a relação específica entre o stress e o trabalho, a Comissão Europeia, definiu-o como um conjunto de reações emocionais, cognitivas, comportamentais e fisiológicas face às adversidades no trabalho, podendo essas mesmas adversidades ou dificuldades provindas do ambiente social onde se desenvolve o trabalho, evoluir para quadros patológicos e crónicos como é o  burnout  - um síndrome simultaneamente emocional e físico, no qual o desgaste se instala progressivamente, até que surge o colapso. Quando as organizações não consideram o “lado humano” de qualquer atividade, utilizando as pessoas, podem levar os indivíduos a uma deterioração do seu desempenho, trazendo com isso prejuízos pessoais, organizacionais e na relação com os outros, colegas, família e amigos. A esta realidade juntam-se as mudanças no trabalho: o mercado é globalizante e extremamente competitivo; o trabalho é mais intenso, exige mais tempo e é mais complexo; produz-se mais, com menos pessoas, e menos recursos; o ritmo alucinante com que se trabalha deteriora o relacionamento com colegas, elimina a solidariedade e o verdadeiro trabalho em equipa, destruindo também a criatividade; há conflito de valores e desequilíbrio entre as exigências do trabalho e os princípios pessoais, entre outras, aumentando com tudo isto o desgaste físico e emocional com níveis de stress cada vez mais elevados.
Em conclusão, sendo o trabalho um problema de saúde pública e parte integrante da existência humana, uma vez que o homem moderno tem dificuldade em dar sentido à sua vida se não for pelo trabalho, a questão a colocar perante esta realidade deixa de ser trabalhar ou não trabalhar, para ser qual o trabalho, quais os riscos oferecidos e quais as consequências que podem advir?

Sílvia Oliveira
Deputada Municipal pelo PPM na Assembleia Municipal de Braga
Jornal “Diário do Minho” de 5 de Setembro, pág. 16

segunda-feira, 9 de julho de 2012

"Como ser dois sendo um? Como ser um sendo dois?", por Sílvia Oliveira

Satisfação conjugal é, sem dúvida, um conceito subjectivo que implica ter as próprias necessidades e desejos satisfeitos, assim como corresponder, em maior ou menor escala, ao que o outro espera, definindo um dar e receber recíproco e espontâneo.
Não há dúvidas que a competência do casal depende da qualidade das relações estabelecidas entre os conjugues, relações essas que se transformam ao longo do ciclo de vida conjugal.
Mas, também é verdade que toda a dificuldade de ser casal encerra ao mesmo tempo, na sua dinâmica, duas individualidades e uma conjugalidade, ou seja, um casal contem dois sujeitos, dois desejos, duas inserções no mundo, duas percepções do mundo, duas histórias de vida, dois projectos de vida, duas identidades individuais que na relação amorosa convivem com uma conjugalidade, um desejo, uma história de vida conjugal, um projecto de vida de casal e uma identidade conjugal.
Então, como ser dois sendo um? Como ser um sendo dois?
Uma condição essencial para o casal é a adaptabilidade, que tem relação com o equilíbrio entre a manutenção de uma estrutura estável e ao mesmo tempo flexível, com regras claras e susceptíveis de serem negociadas e até modificadas, em resposta às mudanças da vida, que hoje, são muitas e muito rápidas.
Um outro requisito fundamental é a expressão das emoções que funciona como aspecto vital da comunicação de casal e que se relaciona com sensações e sentimentos de bem-estar, contentamento, companheirismo, afeição e segurança, factores que propiciam intimidade no relacionamento, decorrendo da congruência entre as expectativas e aspirações que os cônjuges têm e a realidade vivenciada no casamento.
E, nesta continuidade é importante considerar, também, a liderança partilhada, ou seja, a reciprocidade e equilíbrio de poder entre o homem e mulher, pois quando o desequilíbrio persiste leva a relação à insatisfação, a sintomas de fadiga, à diminuição no desejo sexual e até depressão, mais frequente na mulher devido à carga desproporcional de responsabilidades.
Também a coesão é um factor de protecção, integridade e prevenção da ruptura do vínculo. Os casais saudáveis conseguem encontrar um equilíbrio entre proximidade e respeito ao distanciamento e às diferenças individuais. Note-se que nos casamentos tradicionais, espera-se que as mulheres sacrifiquem a satisfação das necessidades pessoais e de relação, à carreira do marido, nestes casos, se alguma coesão é mantida é obra quase exclusiva da adaptação da esposa às prioridades do companheiro. Situação bem diferente das relações actuais em que ambos se empenham na execução dos compromissos de trabalho e família, sofrendo o relacionamento de falta de espaço para o próprio casal e para cada um individualmente.
Independentemente das condições apresentadas serem importantes na vida do casal, a resolução de problemas é das situações mais essenciais para o ciclo vital do casamento. A grande diferença dos casais que dão certo e os que não dão certo, não é a presença ou ausência de problemas, mas sim a capacidade de enfrentar e resolver as dificuldades que surgem na vida a dois. Mais, enquanto no casamento tradicional as regras da relação são claras e até congruentes com a própria família e com a comunidade, retirando-se disso modelos e apoio, nos casais não tradicionais, experimenta-se um tipo de mudança descontínua que muito dificulta a resolução dos problemas vividos. Assim, surgem armadilhas sucessivas que sem resolução à vista caminham para a ruptura de relações que tudo teriam para dar certo. Neste propósito estão, também, os casais com baixa tolerância ao conflito que por isso mesmo, tendem a não exprimir as diferenças, por medo que o conflito aumente e ocasione violência ou ruptura, tendendo nessa continuidade a concordar com tudo, para se libertarem do fracasso ou da culpa. Também existem aqueles casais que caiem em armadilhas de “quem tem razão e quem não tem”, sem qualquer capacidade de considerar o ponto de vista do outro. Uma outra situação que merece todo o cuidado na relação do casal é o evitar os conflitos, pois a sua prática leva a segredos na vida a dois. Nestes casos, os conjugues tem por hábito ver o companheiro(a) como uma parte inseparável da sua própria identidade e existência, considerando intolerável qualquer conflito que possa ameaçar o seu relacionamento, sendo pois este comportamento que leva os aspectos conflituantes a ser escondidos ou até resolvidos fora do casamento, mantendo-se o relacionamento rígido, estável e ilusório, baseado mais na função que na satisfação mútua das necessidades reais. Outra situação é os anos de conflitos abertos e não resolvidos ou os falsos casais que aparecem felizes em público, mas que desenvolvem por trás dessa aparência mecanismos sofisticados para encobrir os buracos da sua relação, sendo a maior parte das vezes casamentos mantidos pela crença na família e não pelos laços emocionais entre os conjugues. Esta incapacidade de interacções eficazes e criativas para resolver os problemas dentro de uma relação, deixa insatisfeitas necessidades pessoais e relacionais, sustentando um estado de bloqueio e de estagnação que leva os cônjuges a não saber como mover-se para dar o primeiro passo, perdendo com isso o potencial curativo da própria relação.
Em forma de termo importa deixar registado que casais satisfeitos conseguem manter fortes laços emocionais com seu cônjuge, mudar a estrutura de poder, de papéis e de regras no seu relacionamento ao longo da vida conjugal e em face de situações de crise, assim como, desenvolvem padrões de comunicação adequados, o que é considerado essencial para a satisfação conjugal de ser amado, respeitado, sentir-se seguro, compartilhar desejos e sonhos, ter suas necessidades físicas, emocionais e espirituais satisfeitas, bem como, ter a possibilidade de dividir tudo isso com alguém especial ao longo da vida.
Sílvia Oliveira
Deputada Municipal pelo PPM na Assembleia Municipal de Braga
Jornal "Diário do Minho" de 7 de Julho, pág. 21

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Complexidades humanas, por Sílvia Oliveira

Não haverá maior entrave ao crescimento humano do que procurar incessantemente a razão das dificuldades e fracassos no exterior de si mesmo.
Conhecermo-nos a nós mesmos através de quem nos rodeia é uma fonte gratuita a jorrar conhecimento e paradoxos sobre a nossa pessoa. Todos, despidos de preconceitos e em plena consciência, devemos saber usá-la para crescer e atingir a plena realização do nosso ser.
A experiência da vida, na sua essência humana, permite a cada um percorrer o caminho, descobrindo, com isso, a subjetividade que há em nós.
Mas, habitualmente, crescemos a embelezar assuntos incómodos, a alimentar justificações infundadas sem saber enfrentar com humildade a verdadeira causa dos problemas, enclausurando-nos em justificações para não assumirmos as responsabilidades dos nossos atos, descuidando, assim, o nosso ser verdadeiro e quebrando, com isso, o mais elementar dos princípios: o de causa/efeito que nos informa que todas as ações têm em nós consequências.
Procuramos incessantemente os defeitos dos outros para justificar a nossa incompetência, a nossa fraqueza e a nossa falta de talento.
Despimo-nos de humildade, de franqueza, e partimos para o fatalismo do destino, na demonstração de falta de condições e na procura de causas externas a nós mesmos, para justificar o nosso insucesso.
Esquecendo-nos que a franqueza permite “jogar limpo”, permite que mais pessoas participem na tomada de decisão, que mais ideias existam. Permite, também, atacar os problemas, mas de forma mais rápida e objetiva, sem ruído, sem perturbação, sem “jogo sujo”. Em boa verdade, para se obter franqueza, esta tem de ser alimentada, pois é assim que qualquer valor floresce.
Algumas pessoas são mais inteligentes que outras. Umas têm mais experiência, são mais criativas; outras têm mais poder ou capacidade de influência, mas todas, sem exceção, devem ser ouvidas e respeitadas. Ser humilde não significa ser inferior aos outros. Significa, sim, autoconsciência e consciência emocional, e com isto ter a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro. A consciência emocional traduz o não passar por cima de tudo e de todos para levarmos a cabo os nossos ideais e realizarmos os nossos sonhos. Ter humildade é querermos saber e aceitarmos ser quem realmente somos, como são avaliadas as nossas ações, como são consequentes as nossas fraquezas. É, de facto, ter a maior das inteligências.
Pobres daqueles que vêem nas suas ideias a verdade absoluta, que rejeitam, por uma postura abusiva e inflexível, ou outros. Com isso não conseguirão viver em sociedade, não irão comungar da partilha de felicidade que é viver em harmonia com aqueles que nos rodeiam.
Para ser humilde é necessário praticar a humildade, ter ações e gestos simples, como reconhecer que o nosso ponto de vista, por vezes, não é melhor do que o dos outros e que os outros são seres como nós, com ideias e convicções, que necessitam do seu caminho.
Em boa verdade, somos capazes de ver o mais pequeno defeito de quem nos rodeia, mas simultaneamente somos tão limitados que não nos permitimos sequer perceber as nossas maiores restrições.
Por maior elevação que tenhamos, olhamos para a nossa vida pelo filtro dos nossos padrões, valores e vivências, que não coincidem exatamente e que estão desajustados a tantos outros pensamentos, de tantos outros seres.
Partimos, na maioria das vezes, de uma educação de base com graves deficiências, sem desenvolvermos um valor essencial para viver em harmonia com a sociedade.
A obra da educação é, talvez, um dos principais processos que mais condicionam o nosso desempenho futuro. Passamos por experiências na nossa infância que muito determinam a nossa forma de estar na vida. Observamos, recorrentemente, situações de ausência exagerada de feedback negativo ou, em muitas circunstâncias, uma proteção extrema que inibe o desenvolvimento de cada ser que há em nós.
Também no nosso dia a dia, a falta de franqueza limita-nos as ideias inteligentes, bloqueia a tomada de decisão, não obtém o que de mais genuíno há em nós, proporcionando um ambiente de animosidade em que o próprio inimigo da prosperidade floresce internamente.
Mas, em boa verdade, ninguém se conhece a si mesmo, pois todas as nossas ações têm, no mais recôndito do nosso ser, uma justificação plausível capaz de enfrentar a mais cabal das contrariedades, tornando-se o maior inimigo de nós próprios, sentenciando, frequentemente, a nossa evolução.
Também experimentamos incessantemente argumentos capazes de demonstrar cientificamente por que é que determinado problema ocorreu, por que é que determinado insucesso era inevitável, por que é que determinado evento adverso surgiu. Perdemo-nos infinitamente a divagar sobre potenciais causas, justificações, até nos sentirmos psicologicamente confortáveis e concluirmos que “tinha de acontecer” e portanto não somos responsáveis.
Sílvia Oliveiradeputada municipal pelo PPM na Assembleia Municipal de Braga
Jornal “Diário do Minho” de 15 de Maio, pág., 21

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Os perus políticos que nos tramam


Em todos os tempos, alguns elementos do topo das hierarquias, principalmente na actividade política, acham-se na necessidade de encher o papo como um peru e abrir a cauda em leque, não para cativar as atenções das peruas que tentam requestar, mas para deslumbrar o comum cidadão com a pomposa excelência que, na sua perspectiva, deve corresponder ao seu faustoso porte. E só aparecem em público, com um luzidio acompanhamento de meninos de pasta, em passo bem ritmado e ar empertigado, imitando saloiamente uma guarda de honra britânica em dia da passagem de sua majestade para a respectiva coroação. Com o seu ar distante, acham-se então o supra sumo das importâncias. Claro que o séquito e os aduladores costumeiros, procuram agradar aos seus chefes de fila, fazendo-lhes elogios em catadupa e comunicando-lhes as excelsas qualidades que possuem, cantando aos seus ouvidos todo o género de dislates, para tentarem obter alguma prebenda em paga da lisonja. Ora, só um peru emplumado, um “nouveau riche” da política, atura e acredita nos ridículos elogios ouvidos. E vai inchando o peito e acreditando, na sua vaidosa cegueira, que é mesmo um verdadeiro sábio da china. Pior é que qualquer português que desempenha cargos políticos é avaliado não pelos aduladores que nas costas sempre dizem mal, mas pela população votante que apenas vê o resultado da sua governação. E se o sábio emplumado não governa os bens e os interesses da república, como um bom e competente pai de família, mal vai a situação, por mais elogios que os cretinos dos seguidores lhe façam. Aí é que é o cabo dos trabalhos, aí é que a porca torce o rabo como se diz na minha santa terra. Pois o local próprio para se aquilatarem as reais qualidades dos políticos e dos governantes não é nos automóveis topo de gama que os conduzem, pagos à nossa custa, não é na prosápia ridícula que exibem, mas muito simplesmente nas acções que cometem e no êxito das políticas praticadas. E se a incapacidade ficar provada, não há importância atirada aos olhos dos cidadãos, que lhes valha. Perdem num ápice a prosápia e até a plumagem, bem como irremediavelmente o monco vermelho que tanta importância lhes dava e lhes adornava o bico, isto é, o nariz, murcha à sua ínfima e triste espécie.
Seria aconselhável que todos os candidatos a políticos lessem uma das epístolas de Horácio, que sentencia que o bicho homem deve procurar ser como os aduladores o pintam, “ Cura esse quod audis”, assim reza a frase em latim, e não acreditar nos falsos elogios que ouve, por mais que lhe agradem. Bem andariam os interesses da comunidade com essa preventiva terapêutica…! O mal é que este tipo de imbecis que acreditam em tudo o que lhes dizem, se renova permanentemente como a praga do gorgulho do feijão.

António Moniz Palme - 2012
Um dos históricos fundadores do PPM. O ilustre popular monárquico Dr.º António Cardoso Moniz Palme, advogado, consultor jurídico, que nas horas livres gosta de estudar, de ler, de escrever e de pintar, foi Deputado da Assembleia da República pelo PPM nos tempos da AD (Aliança Democrática).

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Será crise na família, no casal ou em ambos?

Não há dúvidas que construir uma família na época em que vivemos não é fácil, estamos a viver momentos históricos de grandes mudanças, onde o casal e a família também se têm ressentido. Também não há dúvidas da crescente fragilidade do sistema-casal e familiar dos nossos dias, que parecem estar em profunda crise, enquanto instituição, disto é prova o crescimento vertiginoso do número de rompimentos de casais nas suas mais diversas formas, o que nos leva a ter um sinal de alarme, até mesmo para os casais mais experientes e unidos, pois assistimos a separações precoces de relacionamento em fase de “teste”, ou mesmo depois de um brevíssimo período de convivência, rompimentos de casal depois da chegada do primeiro filho, separações dolorosas após 20 ou 30 anos de vida em comum e, ainda mais inacreditável, em idade avançada.
Por um lado, a sociedade ocidental de hoje tem como meta a liberdade individual a ser alcançada a qualquer custo, esquecendo-se um pouco de libertar o homem do “mito” ou mesmo do “complexo de liberdade”, este sim o limite, ou seja, o grande obstáculo do homem ser livre, comprometido e responsável. Por outro lado, o próprio desenvolvimento do casal parece ameaçado em seu interior por fortes rupturas, cada parceiro inicia uma vida a dois, consciente de que neste período da história desapareceram as certezas e previsões plausíveis sobre como manter viva a ligação do casal ao longo do tempo.
Neste contexto, surgem novas formas de família, sendo o tipo de família mais crescente da actualidade – as famílias reconstruídas -, onde os irmãos passam a ser adquiridos e onde os fenómenos de recomposição familiar passam de um primeiro núcleo mais restrito para configurações mais ampliadas com a presença de crianças e adolescentes nascidos e crescidos em casas diferentes.
Todas estas realidades levam os novos casais a romper com os velhos estereótipos sociais de visões mais idealizadas e tradicionais, o que vai contribuir para aumentar a confusão entre o casal e não favorecer os novos processos de vida familiar.
Em tudo isto podemos observar a crise do casal que na sequência lógica será também a crise da família, esquecendo-nos em certa medida de toda a positividade e até potencialidade que estas novas formas, de se organizar a família têm. Chegando mesmo a esquecermo-nos do “laço hipócrita” de muitas das famílias ditas tradicionais que a qualquer custo, tentam manter um casamento, mesmo quando há falta de autenticidade e respeito recíproco, vivendo, mesmo, anos a fio divórcios invisíveis, convencidos, por tanta ingenuidade ou até ignorância que mantendo-se assim, serão um exemplo para os filhos.
Também será bom ter-se consciência que longe estamos do modelo ultrapassado em que o marido munido de um cansaço físico e psicológico por ser o único provedor da família se “desalinhava” no sofá num sono profundo, deixando todo o encargo da organização, manutenção e educação para a esposa, situação aceite, porque o estabelecimento de regras, metafóricas de então, cingiam-se unicamente à atribuição de funções, regras e direitos em função do género. Também será bom lembrar que longe estamos do conceito ou “mito” de intimidade fusional, “a minha cara metade”, procurando-se, hoje, descobrir como fazer para encontrar “duas unidades” capazes de dialogar de modo harmónico e duradouro.
Antes mesmo de terminar, gostava ainda, de referir as dificuldades de muitos casais em afastar-se da necessidade tantas vezes negada ou mascarada de dependência das próprias famílias de origem, onde o Édipo mal resolvido os faz voltar constantemente a essa dependência, sendo isso mesmo, a causa de graves sofrimentos conjugais. Por outro lado, em nada nos faz mal, reflectirmos, um pouco, sobre a raiva e a dor dos filhos que se sentem como que “bagagem” de uma casa para outra, sem conhecerem ou partilhar o itinerário e o ponto de chegada. Situação comum nos nossos dias e tornada “invisível” em muitas famílias que por resistência e/ou conflito não satisfazem as necessidades destas crianças magoadas e esquecidas.
Termino com a ideia de ter dito tão pouco daquilo que gostava de partilhar convosco, mas prometo voltar, quiçá, com reflexões sobre o terreno fértil às crises de casal e às novas formas de nos podermos adaptar ao ciclo vital do casamento e da família, de forma, a conseguirmos pensar em conjunto alguma felicidade através do funcionamento saudável de viver um “casamento”.

Sílvia Oliveira
Deputada Municipal do PPM
Jornal "Diário do Minho" de 18 de Abril, pág. 16

segunda-feira, 19 de março de 2012

Jornal Diário do Minho: CRIANÇAS E COMPUTADORES (Artigo de Opinião)

As crianças pertencem à “geração dos computadores e o ato de clicar tornou-se numa nova forma de interagir com o mundo. Seymour Papert, em A Família em rede (Lisboa, Relógio de Água Editores,1997) afirma mesmo que existe um apaixonado caso de amor entre as crianças e os computadores. Os seus olhos brilham com o desejo de se apropriarem deles, sabendo que lhes pertencem, evidenciando-se, assim, uma relação afetiva com a máquina e uma grande “plasticidade mental” ou cognitiva, capaz de anular bloqueios e angústias na interação com o “outro”.
Todos nós já observámos que o computador é visto pelos mais novos com curiosidade, naturalidade e muito entusiasmo, notando-se neles uma grande facilidade em trabalhar com este instrumento, facto que contrasta com as muitas dificuldades evidenciadas pelos adultos.
De facto, todas as pessoas, independentemente da idade, são atraídas pelo que fascina, mas também pelo que intriga e até assusta, o que se verifica na relação da criança com o computador. Apesar de ele já ser vulgar na sua vida, não se apresenta neutro, conseguindo provocar o pensamento, intervindo mesmo na forma de pensar. O computador fala, ganha jogos, sabe de novas coisas, etc.. Faz com que as crianças sejam confrontadas com uma “espécie de vida”, que as leva a pensar, mas não a sentir, a aprender mas não a escolher, a interagir mas não a desenvolver relações com outras pessoas. Verifica-se, assim, que o computador na posse da criança favorece o individualismo e o isolamento, o que não acontece no estabelecimento de laços e na cooperação espontânea com outras crianças – excelente elemento socializador – ou com o acompanhamento conhecedor do adulto. Este, sendo possuidor de uma vertente pedagógica, para além da simples questão técnica, consegue que a criança aprenda escrevendo, falando, desenhando, comunicando, investigando, criando e interagindo, transformando, com essa ação consciente e programada, simples “ilhas isoladas” em “comunicadores eficazes” que vão desde a aprendizagem interativa a complexos trabalhos em grupo.
Daqui se conclui que é fundamental que os computadores e todos os seus sistemas digitais estejam contextualizados na educação formal, não formal e informal, como recurso pedagógico aberto a novas formas de interagir, aproveitando-se, assim, as enormes potencialidades de socialização e aprendizagem disponibilizadas pelas ferramentas da sociedade da informação.
Sílvia Oliveira
deputada municipal PPM na Assembleia Municipal de Braga
Jornal “Diário do Minho” de 17 de Março, pág. 21

segunda-feira, 12 de março de 2012

Agradecimento ao Sr. Presidente. por Pedro Borges de Macedo

Aquando das últimas eleições presidenciais, num texto opinativo que o Diário do Minho publicou, referi que no primeiro mandato do Professor Cavaco Silva, ficou demonstrado que um Presidente da Republica tem limitações de poderes por estar dependente de um segundo mandato. Assistiu-se a esta situação quando o Presidente sofreu um ataque do P.S. para desviar as atenções do País e ganhar umas eleições. No final desse mandato, também ficou demonstrado que de 5 em 5 anos, existe um período de 6 meses em que não se pode demitir um Governo por mais incompetências que cometa. Foi notório que o Professor Cavaco Silva, nesse primeiro mandato, não decidiu com consciência mas sim, com a frieza de nunca ser atacado por favorecimento da sua família política tendo com isso prejudicado o País.
Pode-se perceber que não morro de amores pelo “Engenheiro” José Sócrates e que o considero um político incompetente perigoso, mentiroso compulsivo, ávido de poder a qualquer custo e com uma tendência para ser notícia em casos Judiciais. Com isto quero dizer que o “Engenheiro” José Sócrates é, na minha opinião, um sinónimo de esterqueira política.
Quero por isso agradecer ao nosso Presidente da Republica por auxiliar a população portuguesa a perceber como a Republica é muito mais imperfeita do que a Monarquia.
A falta de lealdade institucional que o Presidente da Republica se queixou, seria pouco provável de existir se Portugal fosse uma Monarquia. E mesmo que acontecesse essa falta de lealdade do Primeiro-ministro perante o Chefe de Estado Monárquico resultaria, obviamente na demissão imediata do Governo com a compreensão de todos os portugueses.
Ao fim ao cabo, essa contumaz deslealdade ficou a dever-se ao “fait divers” de uma suspeita de escutas e à tentativa por parte do P.S. de condicionar a acção política de um presidente que preferiu “engolir sapos” a correr o risco de não ser reeleito.
Um Rei não tem que gerir “Timings políticos” pois não pertence a uma família política, não é oriundo de uma família de esquerda nem de direita e não tem de se preocupar com as sensibilidades destas duas grandes tendências. Um Rei olha para a frente e apenas tem como preocupação a família a que pertence e que são os portugueses.
Desejo igualmente agradecer ao Presidente da Republica Cavaco Silva pois ao escrever as declarações que fez por ocasião do aniversário da sua eleição provou que não é tarefa fácil estar-se preparado para a Chefia de Estado. Um Chefe de Estado não pode nem deve ser vingativo. Não pode nem deve reavivar disputas passadas e enterradas e sufragadas como a que desferiu e que apenas serve para branquear fantasmas. Um Chefe de Estado deve estar atento aos problemas reais do País, sempre mais relevantes do que qualquer “acerto de contas” extemporâneo, como foi este penoso episódio.
Um Rei, porque desde cedo é instruído para desempenhar a chefia de Estado, ou diz na altura própria aquilo que deve ser dito ou então, nada diz em publico que possa desestabilizar a concórdia dos seus cidadãos. Exemplo desta situação é o caso do Rei Juan Carlos que não teve problemas nenhuns em mandar calar o Presidente da Venezuela ao contrário do que fez o nosso Presidente Cavaco Silva na Republica Checa onde depois de ouvir o enxovalho aos portugueses, não teve a dignidade de sair da sala e abandonar ostensivamente o execrável banquete.
Outro exemplo que recordo, é o do Rei D. Manuel II que apesar de lhe assassinarem cobardemente o Pai e o Irmão, não perseguiu o partido que estava implicado nesses actos terroristas e mesmo depois de o expulsarem do País, nunca deixou de amar a sua Pátria e em todas as ocasiões enaltecer os portugueses.
Obviamente que um Chefe de Estado preparado e educado para o ser, desempenha muito melhor a representação do Estado e promove o equilíbrio da Nação do que um qualquer ambicioso que tenta sobreviver mediante os adversários políticos.
Mas um outro problema se coloca. Um dos argumentos que os Republicanos adoram colocar em cima da mesa é a hipotética senilidade que um Rei pode sofrer. Na monarquia, quando um Rei fica senil, afasta-se o Rei. Pelos vistos na Republica não.
Mesmo assim, obrigado Sr. Presidente da Republica Aníbal Cavaco Silva.

Pedro Borges de Macedo
Vice-presidente da CPD de Braga e Vogal da CPN do PPM